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 artigos 28.07.2010    
Dilemas de nossa educação  
     
   
  O artigo de Sergio Fausto no Estadão de 25/07/2010 (Modernidade ilusória) faz análise de aspectos de nossa educação que nos separam negativamente de outros países.  
por Francisco G. Nóbrega

Um fato que vai refletir fortemente em nossa capacidade de atuar em áreas de alto valor agregado é a quantidade de engenheiros.

Por ano formamos 30 mil enquanto a Índia e a China, também países emergentes do BRIC, formam 300 e 600 mil respectivamente. O Pisa (Programme for International Student Assessment 1) mais recente (2006) demonstra que o país está muito mal.

Em ciências ficamos na posição 52 entre 57 países. A posição de nossos vizinhos: 41 Chile, 42 Uruguai, 49 México, 50 Argentina, 51 Colômbia. Nenhum brasileiro, neste levantamento, atingiu o nível mais alto (nível 6) de desempenho. Entre os países da OECD*, 1,3% respondem questões neste nível, na Finlândia 3,9%.

Quanto à capacidade e compreensão em leitura entre 56 países temos: 38 Chile, 42 Uruguai, 43 México, 49 Brasil, 51 Colômbia, 53 Argentina. Também o Brasil não está entre os paises que exibiram uma melhora nos índices de leitura relativamente ao Pisa 2000.

Em matemática, entre 57 países estamos também quase em último lugar: 42 Uruguai, 47 Chile, 48 México, 52 Argentina, 53 Colômbia, 54 Brasil. É interessante notar que o Índice de Democracia 2008 (trabalho do Economist Intelligence Unit 2)  classifica os 167 países analisados em democracias plenas (30 países), democracias com defeitos (50), regimes mistos (36) e regimes autoritários (51) com base em 5 indicadores principais: pluralismo e processo eleitoral, eficiência governamental, participação política, cultura política e liberdades civis.

Uma amostra do ranque: 23 Uruguai entre as democracias plenas, 32 Chile, na segunda posição entre as democracias com defeitos, 41 Brasil, 55 México, 56 Argentina, 60 Colômbia, 75 Bolívia e, entre os regimes híbridos a Venezuela está na posição 95. A Coréia do Norte ocupa a última posição (167).

Nota-se que os países latinos da América com melhor colocação no índice de democracia (Chile e Uruguai) também estão nas melhores colocações na avaliação do Pisa. Também pagamos o preço educacional por ser um dos países mais desiguais do mundo (pelo estudo do PNUD** recente, estamos empatados com o Equador, só a Bolívia e Haiti estão em situação pior).

Depoimentos no sentido de apontar problemas e propor soluções em nossa educação fundamental e média como os de Isaac Roitman e Camilo da Silva Oliveira (ver entrevistas ANAE) levantam, entre outros aspectos, a questão da avaliação objetiva do desempenho como essencial para guiar a otimização do processo educacional entre alunos e professores.

Os depoimentos recolhidos pela VEJA3 com especialistas americanos (nov 2007) e com o ministro Fernando Haddad (out 2007) destacam a importância de criar mecanismos que ofereçam incentivos econômicos diferenciados, como um bônus anual para professores de escolas com bons resultados, seleção de diretores baseada no mérito, autonomia financeira para escolas bem avaliadas.

Os americanos afirmam que os dados objetivos demonstram que aumentos salariais isonômicos não resultam em melhoria no desempenho educacional.

Em certas regiões do Brasil, os salários estão tão baixos que deve haver alguma melhora apenas com aumento salarial. Em entrevista o secretário de educação do Estado de São Paulo, o Prof. Paulo Renato4 (out 2009) defende as políticas baseadas em mérito que introduziu.

Por outro lado a  APEOESP5 defende a isonomia e inclusive tenta na justiça inviabilizar o sistema de promoção de professores estabelecido no Estado de São Paulo. Não podemos deixar de avaliar com a maior objetividade e isenção as medidas a implementar para que nossa educação saia do estado lamentável em que se encontra.

A complexidade do assunto vai exigir uma estratégia que mobilize diferentes setores. Algumas soluções possíveis dentro do sistema atual, ancoradas em direção competente, compromisso entre pais, alunos e professores quanto à disciplina e convivência, e monitoramento constante dos resultados nas provas objetivas (como ENEM e Prova Brasil por exemplo) foi demonstrada eficaz na gestão bem sucedida do Prof. Camilo da Silva Oliveira em Taboão da Serra.

Mas isso vai depender de uma melhoria na capacidade gerencial de diretores e na formação de professores em grande escala. Não se pode apenas submeter professores a provas e promover diferencialmente. Precisamos qualificar maciçamente docentes que, no momento, ganham pouco, estão com excesso de carga didática e mal preparados neste país-continente. 

A entrevista de Andreas Schleicher  que dirige o programa Pisa (Estadão de 25/7/2010) oferece um balizamento para o futuro. Mostra que as avaliações são importantes não apenas para ingresso e saída dos programas mas para fornecer dados que identifiquem problemas e orientem soluções ao longo do tempo.

Diz que as informações geradas devem ser transformadas em ações. Lembra que as sociedades que não cuidarem do problema educacional no sentido de atingirem toda a juventude, nesta era da informação, vão pagar um preço muito superior ao do investimento necessário.

Destaca a importância da qualidade com o exemplo de Finlândia e Coreia do Sul, países no topo da hierarquia educacional segundo o Pisa. Ambos buscam seus professores entre os 10% com as melhores notas ao sair da universidade. A tarefa é hoje mais difícil pois é crescente a rapidez com que a sociedade se modifica com novas profissões e necessidades surgindo à toda hora.

O objetivo educacional, lembra Schleicher, não é mais o domínio de um conteúdo mas a “capacidade de aplicar esse conhecimento em situações inéditas”. Mostra que o foco saiu do currículo e se volta para o aluno que deve ser individualizado, pois cada um aprende de maneira distinta.

Remete à discussão atual de que o professor não mais seja a fonte do conhecimento mas atue como um mediador, orientando, estimulando e avaliando.

* Organização de Cooperação Econômica e Desenvolvimento

** Programa das Nações Unidas para Desenvolvimento

F.G. Nóbrega é professor titular aposentado da USP, atualmente na UNESP de São José dos Campos.

Fontes:

1 PISA 2008

2 Democracy Index 2008

3 Meritocracia na Educação 

4 Paulo Renato entrevista 2007

5 Notícia APEOESP

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